Clarisse Werneck

Já imaginou uma área com um milhão de metros quadrados de Mata Atlântica preserva-da, onde há uma casa de dois anda-res contendo labora-tórios de física e biologia, aquários e terrários com cobras, aranhas, tartarugas, raias e vários outros animais? Parece sonho, mas trata-se da Toca da Ciência, uma terceirização de aulas de Biologia e Física. E o melhor, é que tudo isso e mais uma equipe de professores e recreadores está a disposição das escolas. A idéia é do professor Líbero Miranda, biólogo, com pós-graduação em Bioquímica, que inaugurou a Toca da Ciência no dia 16 de maio, no Alto da Boa Vista. O belo local em que fica a empresa é um convento, onde funcionava o Centro Educacional do Sagrado Coração, desativado há 15 anos. Líbero reformou uma das muitas construções lá existentes, especificamente para a criação da Toca da Ciência.

Logo que chega à Toca, o visitante se depara com uma enorme área verde. Mais adiante, verá os primeiros aquários com raias, ouriços, bagres e estrela do mar. Ao entrar no laboratório de Biologia, ele poderá observar microrganismos através de uma TV. O microscópio transmite as imagens direto para a tela. Talvez uma das cobras se enrosque em seu braço ou cintura. Mas não é preciso ter medo. Elke, Julie e Suzie, como são chamadas, apesar de serem da espécie Piton Regis, da família das jibóias, são mansas. Elas foram criadas em cativeiro e estão acostumadas com os humanos. O aluno ainda verá lagarto, aranha, iguana, esquilo, rãs e girinos, entre outros. Ainda é possível observar caixas de abelha e de formiga. Há também uma chocadeira que pode ser regulada para que pintinhos e codornas nasçam no horário em que as crianças estejam em visita.

Mas, se a turma estiver estudando algum outro bicho que a Toca da Ciência não possua, talvez isso não seja um problema. Muitos animais podem ser capturados na floresta ou no mar. O professor Líbero e o funcionário Leonardo Fernandes Castro, o Leo, são mergulhadores profissionais. “Nenhum animal é dissecado ou morto. Depois do estudo, eles são devolvidos ao mesmo lugar em que foram capturados”, avisa Miranda. Líbero e Leo dão aulas de mergulho para jovens a partir de 14 anos. No entanto, as crianças com mais de cinco anos, que estiverem em visita à Toca, já poderão ter um primeiro contato com o equipamento, pois o Centro Educacional do Sagrado Coração possui uma piscina. Leo, por sua vez, também está montando a sua terceirização. Ele ministrará aulas de Biologia Marinha em Angra dos Reis, para adultos, adolescentes e crianças com mais de cinco anos. Os alunos vão mergulhar, capturar os animais, estudá-los e, depois, devolvê-los ao mar.

No segundo andar, está localizado o laboratório de física, equipado com Plataforma Giratória, Trilho de Inércia, Loopping, Chispa Ascendente - que solta fagulhas até o teto - entre outros equipamentos. A grande atração é o Gerador de Van der Graff, um aparelho que produz 24 mil woltz de carga estática. Ele faz os cabelos subirem, faíscas saírem dos dedos e lâmpadas de néon acenderem na mão de quem toca, simultaneamente, na lâmpada e no gerador.

 

As atividades da Toca da Ciência, no entanto, não param por aí. Miranda e seus funcionários organizam caminhadas pela floresta, em que aulas vão sendo dadas durante o trajeto. Eles também estão desenvolvendo uma horta, que será cultivada com a ajuda dos visitantes.

O embrião da Toca da Ciência começou a se desenvolver em 1996, quando Líbero teve a idéia de montar uma terceirização em aulas laboratoriais de Biologia, Física e Química. Ele se uniu a Armando Coelho Duarte, que é biólogo e mestre em Biofísica, além de ser diretor do curso noturno da Escola Municipal Eça de Queiroz. Juntos, eles criaram a Carisma, uma empresa que fornecia, para os colégios que a contratavam, todo o mobiliário, televisão, lupa, videocassete e microscópio, além de indicar os professores e desenvolver o conteúdo das aulas. A Carisma foi tão bem-sucedida, que em 1997 já eram 12 escolas vinculadas.

No ano passado, Líbero encontrou, casualmente, com a freira que foi coordenadora do colégio que ele estudou na infância - o Centro Educacional do Sagrado Coração. Desde que o colégio foi fechado, várias construções do local ficaram vazias. O antigo convento, com 180 leitos, também já não funciona. As freiras construíram uma nova casa para elas, já que o casarão se tornou grande demais.

A conversa com a freira rendeu uma idéia para Líbero - criar um local com laboratórios equipados, onde crianças e adolescentes pudessem aprender e se divertir. Nascia a Toca da Ciência.

Realizado um sonho, Líbero pretende organizar, agora, uma Colônia de Férias, aproveitando alguns dos 180 leitos, divididos em 87 quartos, que se encontram vazios no casarão do antigo convento.

No futuro, além do laboratório de Química, o professor Miranda também pretende instalar um biotério, ou seja, um lugar para criação e reprodução de répteis. O projeto inicial, desenvolvido por Líbero e pelo veterinário Rafael Veríssimo Moreira, previa a criação do biotério em Teresópolis. O projeto estava esperando apenas por um financiamento. Recentemente, Miranda descobriu, no Alto da Boa Vista, uma construção que, se reformada, poderá dar corpo ao biotério, que também será aberto para visitas.

“Aqui, na Toca da Ciência, desenvolvemos as aulas de acordo com a necessidade de cada educador, adequando-a ao que foi aprendido em sala de aula”, diz Líbero. O preço é de R$12,00 por aluno para o período de quatro horas ou R$20,00 para o período de nove horas, com lanche incluído. As escolas públicas têm desconto de 30%. Há dois refeitórios no local, e o almoço tem um custo de R$5,00 por aluno. É cobrado um acréscimo de R$1,00 por criança, caso a escola queira utilizar a piscina. Para os colégios que não puderem ir até a Toca da Ciência, a Toca da Ciência vai até o colégio. Os professores Miranda e Armando Coelho Duarte organizam feiras de Ciência nas instituições de ensino, de acordo com os temas estudados. Os projetos são desenvolvidos com a participação dos alunos.

Líbero Miranda acredita que o futuro da educação está exatamente na terceirização das aulas em vários setores do conhecimento. Em sua opinião, esta é a melhor opção para se manter a qualidade. Mas reconhece que ainda é um processo dispendioso para a maioria dos colégios. As escolas brasileiras, incluindo as escolas públicas, deveriam dispor de uma verba extra, para que atividades como uma visita à Toca da Ciência fossem realizadas com freqüência.