Uma aula de História Diferente

Simone de Azevedo e Katia Machado

Para ensinar História do Brasil, muitos professores utilizam livros didáticos, quadro-negro e giz. Mas este método ainda faz alguns alunos adotarem a famosa “decoreba” para a fixação dos fatos históricos. Foi pensando em mudar este quadro que a professora de Matemática Áurea Regina de Miranda Goldolphim resolveu dar vida a sua paixão pela História do nosso país. Alugou um sítio em Maria Paula, Niterói, e projetou uma sala de aula completamente diferente do convencional. Ao ar livre, e sem livros ou cadernos, a professora recebe a visita de alunos e profissionais de Educação e lhes convida a fazerem uma viagem no tempo, em que os cenários de época recontam cinco séculos de História.

Portugueses, índios, quilombolas, senhores-de-engenho e republicanos. É com a ajuda destes personagens que a viagem histórica, desde as naus de Cabral e Caminha à República de nossos tempos, está fazendo com que alunos dos Ensinos Fundamental e Médio “mergulhem” numa aula de História bem diferente. A fórmula encontrada por Áurea tem como objetivo possibilitar aos estudantes apreenderem os fatos de forma definitiva. “O Pero Vaz de Caminha que os alunos encontram no sítio vai ficar em suas memórias para o resto da vida. Eles nunca vão esquecê-lo porque vivem a simulação histórica junto com os personagens”, afirma.

Durante o passeio, coordenadores e monitores acompanham os alunos para situar o período histórico de cada encenação. A preocupação da equipe é fazer com que os estudantes tenham contato não só com as datas aprendidas nas escolas, mas também com o conteúdo de todo o período histórico. A monitora Vânia Azeredo, antes de conduzir os visitantes através das etapas do passeio, avisa-lhes: “ Lembrem-se de que vocês estão voltando no tempo”.

Dividido em séculos, do XV ao XX , o sítio remonta, para os alunos, o Brasil indígena e seu descobrimento, a expedição de Martim Afonso de Souza, o ciclo do açúcar, a escravidão e o nascimento dos quilombos, o ciclo do café, o período monárquico e o fim da escravidão, com a assinatura da Lei Áurea. Para os estudantes do Ensino Médio, a viagem no tempo é mais abrangente. A república dos coronéis, a produção literária, os estudos de Oswaldo Cruz e o presidencialismo também são alguns dos temas abordados. Para Áurea Regina, esta parte da História é mais apropriada para alunos a partir da 5ª série, pois propicia reflexões e críticas.

Planejar uma aula de História que agrade todos os alunos não é tarefa muito fácil. Mas, com criatividade, professores podem elaborar novas maneiras de ensinar fatos históricos. De qualquer modo, interatividade é a palavra de ordem para estimular a aprendizagem dos estudantes. O mais importante é “prender” a atenção da turma e fazer com que os fatos históricos não se dispersem na brincadeira.

O projeto desenvolvido no sítio em Maria Paula, Niterói, dispensa o uso de livros didáticos, lápis ou cadernos. O único “material” necessário é a atenção dos alunos. Neste caso, a criatividade fica por conta dos cenários de época, das falas rebuscadas dos personagens e da dedicação da professora Áurea Regina.E a gincana de perguntas e respostas sobre temas apresentados é a maneira encontrada pela idealizadora do projeto para medir a interatividade dos alunos.

 

Para os professores que desejarem criar uma aula diferente, há, porém, a possibilidade de não utilizarem uma área tão grande como a do sítio de Niterói. O sítio de cada professor pode ser materializado na montagem de uma peça teatral, em um passeio pelos museus da cidade, na confecção de objetos como cocares, bandeiras e no uso de pedaços de pau-brasil. A idéia é trazer para a sala de aula elementos que possam fazer com que os alunos viajem no tempo.

E, para aqueles que ainda não descobriram o imenso universo de recursos disponíveis para complementar o ensino da nossa História, que completa 500 anos em março de 2000, sugerimos lugares e endereços eletrônicos que podem ser utilizados para quebrar a rotina das aulas restritas ao uso de quadro-negro e giz.

Século XV

Brasil Indígena e seu descobrimento Num espírito de descontração e brincadeira, o personagem Pero Vaz de Caminha relata a chegada dos portugueses ao Brasil, em 23 de abril de 1500. O objetivo de encontrar um caminho marítimo para as Índias, em busca de especiarias, e a importância do Tratado de Tordesilhas são enfatizados durante a apresentação. Um dos pontos altos para os estudantes é o encontro com duas índias Guaras, que lhes explicam um pouco sobre os hábitos, costumes e crenças dos povos indígenas.

Século XVI

A expedição de Martim Afonso de Souza Enquanto as duas índias revelam como funciona o escambo (troca) do pau-brasil por bugigangas portuguesas, o personagem Martim Afonso de Souza entra em cena para explicar o surgimento da Vila de São Vicente e o interesse em consolidar a presença portuguesa no Brasil. O assunto principal enfatizado pelo personagem é territorial, trata-se das 15 capitanias hereditárias: “Então, o rei dividiu este território dando-me cinco capitanias, e três ao meu irmão Pero Lopez”. Começa aí o interesse pelo cultivo da cana-de-açúcar.

Século XVII

Ciclo do Açúcar “Se os índios são rebeldes, que venham os negros!”. Um teatro de marionetes conta que, para dar continuidade à colonização, os portugueses precisavam de mão-de-obra. Como os índios mostravam-se preguiçosos, a solução foi trazer negros da África. Nesta etapa, os alunos passam a ter contato com a escravidão e o apogeu dos senhores-de-engenho, alcançado através da exploração do açúcar. A revolta dos negros e a criação dos quilombos, como sinônimo de nação e liberdade, também fazem parte deste ato, que ressalta a importância de Zumbi dos Palmares.

Século XVIII

Ciclo do Ouro e do Café Ouro no chão, café na xícara. A exploração do ouro, as mudanças econômicas e sociais na colônia e as plantações de café são os destaques apresentados nesta parte do sítio. É aqui que os estudantes conhecem a casa-grande, a senzala e a capoeira, um jogo africano praticado pelos negros e utilizado como defesa nas lutas. Nesta parte do passeio, guloseimas, como bolo de fubá e aipim cozido são servidas aos alunos. De barriga cheia e olhos vidrados, os estudantes são convidados a participar de uma gincana de perguntas e respostas, na qual todos os fatos históricos são revistos.