Simone Garrafiel

Uma aula de Educação Nutricional pode ser rica em ingredientes e práticas culinárias, mas, também, é uma ponte perfeita entre as receitas produzidas e alguns conteúdos estudados em Matemática, Português e Ciências. O lema é cozinhar e aprender. E é “colocando a mão na massa” que os alunos da alfabetização à 4ª série, da escola Espaço Infantil, no Grajaú, aprendem a ser consumidores conscientes e, também, alunos exemplares.

A professora e nutricionista Adriana Ferreira da Costa é quem ministra este trabalho interdisciplinar nas aulas de culinária. O primeiro passo de Adriana é se reunir com os professores de Matemática, Português e Ciências, para saber quais serão os conteúdos abordados no semestre e, assim, adequar as receitas que serão produzidas e planejar suas aulas. O objetivo do trabalho é enfatizar o aprendizado através de atividades criativas e diferentes e fazer com que os alunos assimilem melhor os conteúdos estudados em sala de aula, percebendo que com o simples ato de cozinhar, podem aprender várias coisas.

A dinâmica das aulas obedece a capacidade de cada série. “Com os alunos de 1ª a 4ª séries, trabalho com os problemas que envolvem a Matemática e o Português. Com os da alfabetização e da pré-escola, faço quebra-cabeça de palavras e um trabalho de visualização dos alimentos, através de figuras”, explica Adriana. Para escolher as receitas que serão produzidas, ela conta com a participação dos alunos. Eles lêem todas que foram pré-selecionadas pela professora e entram em um consenso de quais serão trabalhadas. Quando trata-se das turmas de alfabetização, Adriana é quem faz a leitura e mostra a fotografia da receita, para que as crianças apontem a que querem fazer.

Na hora de colocar a mão na massa, a turma é dividida em grupos e cada aluno executa uma etapa da receita, mas, quando é preciso o aquecimento, Adriana é quem se torna responsável pelo manuseamento do forno ou fogão. Durante as aulas, a nutricionista aproveita para fazer referência aos conteúdos das disciplinas e passar alguns conhecimentos específicos de nutrição e saúde. Assim, enquanto os alunos cozinham, ela fala sobre a origem e classificação dos alimentos, passa noções de higiene e limpeza e aproveita as diferentes quantidades de ingredientes para enfatizar a Matemática, mostrando o lado concreto de conteúdos como números inteiros e fracionários, medidas de capacidade e de massa ou soma e subtração.

O Português, nas turmas de ensino fundamental, é trabalhado através de redações, nas quais os alunos descrevem suas opiniões e observações com relação às receitas e também através de textos prontos, para que eles acentuem e pontuem. Nas turmas de alfabetização e pré-escola, Adriana “materializa” a divisão silábica, brincando com um jogo de desenhos e letras, no qual as crianças precisam montar as fotos dos alimentos, com seus respectivos nomes. Além das aulas práticas e teóricas desenvolvidas dentro da escola, Adriana leva os alunos a feiras, lanchonetes e supermercados, para complementação dos estudos. Nestes estabelecimentos, o simples ato de comprar os alimentos significa um espaço aberto para mais explicações e curiosidades. “Aproveito estas situações para passar mais informações para eles. É importante trabalhar com conhecimentos gerais”, afirma a nutricionista.

Abaixo, veja algumas das atividades que Adriana desenvolve fora de sala de aula.

HORTIFRUTI
Observar a higiene dos alimentos, escolher os de melhor qualidade e comprá-los na quantidade estipulada. Após orientações de Adriana, estas são as incumbências dos alunos quando chegam no Hortifruti do Grajaú. Enquanto fazem as compras, ela conversa com a turma sobre os malefícios do agrotóxico e mostra a diferença entre os alimentos adequados para consumo e aqueles que não devem ser consumidos. Neste passeio, também são apresentadas frutas muitas vezes desconhecidas pelas crianças, como, por exemplo, a carambola.

 

Já em sala de aula, os alunos trabalham a Matemática, fazendo as contas de quantos quilos de alimentos foram comprados ao todo e o quanto sobrou de troco das compras. Adriana também explora o Português, pedindo que os alunos escrevam por extenso as quantidades e os preços de cada alimento.

LANCHONETE
A visita a uma lanchonete da cidade é motivo de muita euforia, divertimento e, claro, de muito aprendizado. As crianças participam do processo de produção dos sanduíches e vêem o funcionamento das máquinas utilizadas na sua preparação. Geralmente, esta visita é feita quando elas estão estudando as propriedades da água, nas aulas de Ciências. Assim sendo, Adriana aproveita para falar da higienização dos alimentos e da importância de se lavar as mãos antes de comer qualquer alimento.

FEIRA
Em uma feira, é desenvolvida uma atividade de reconhecimento e percepção dos alimentos. “Explico para meus alunos a diferença entre alimentos industrializados e caseiros e peço que eles toquem, cheirem e vejam as cores das frutas, verduras e legumes”, explica Adriana. Para saber se as informações foram assimiladas, os alunos fazem um trabalho escrito, descrevendo o que foi visto na feira.

SUPERMERCADO
A ida ao supermercado faz parte do trabalho sobre a diferença entre alimentos diet e light. Antes da visitação, alguns produtos destes gêneros são apresentados para que os alunos possam prová-los, observar a consistência de cada um e ver suas diferenças, através do estudo dos ingredientes especificados nos rótulos. “Este trabalho é interessante, porque, ao final, as crianças conseguem identificar os alimentos que são gordurosos ou que têm mais ou menos calorias”, comenta Adriana. No supermercado, cada aluno recebe uma listagem com os itens fundamentais que devem estar contidos em um rótulo. A partir daí, começa o trabalho de observação e anotação, com relação às especificações de cada produto. Além disso, eles aprendem a identificar as seções de um supermercado e os produtos encontrados em cada uma delas.

As aulas de Educação Nutricional também atingem os pais, através de um documento circular, elaborado por Adriana juntamente com a pediatra Márcia. Distribuído mensalmente, nele são encontradas informações sobre energia alimentar, como evitar que as crianças tenham constipação intestinal (prisão de ventre) ou como balancear o café da manhã dos filhos. Segundo Adriana, estas informações são essenciais para que os alunos tenham uma alimentação saudável e, conseqüentemente, cheguem dispostos para o aprendizado na escola.

O resultado das aulas e visitações é sentido no prazer que os alunos têm em participar delas. “Eles gostam das atividades e a questão multidisciplinar atrai muito a atenção deles, pois eles descobrem que os conteúdos que estudam em sala de aula podem ser aplicados e vivenciados no dia-a-dia”, orgulha-se Adriana. “Colocar a mão na massa”, saber a importância de se fazer pesquisa de preços dos alimentos, ter noção se os produtos são caros ou baratos, enfim, saber ser um consumidor infantil. Sem dúvida, as aulas de culinária são um grande apoio para o desenvolvimento de diversas habilidades, que funcionam como estímulo eficaz para a aprendizagem.