Os Contos de Fadas e a Escola: Uma Parceria

Rona Hanning

 

 

Quando procuramos trabalhar com uma literatura de qualidade na escola, não devemos perder de vista a necessidade de “realizar sua função formadora, que não deve ser confundida com uma missão pedagógica”1. Ou seja, a função maior de se trabalhar com a Literatura Infantil deve ser a de aproveitar o espaço escolar como lugar para formar novos indivíduos, que sejam capazes de construir um conhecimento do mundo, de si mesmos, e de extrair da arte o papel transformador que esta pode exercer dentro da vida, e, por isto, do ensino.

É sabido que a escola, enquanto instituição destinada ao ensino, não tem dado voz ativa a seus alunos, continuando a trabalhar, de modo geral, pautada numa relação vertical entre professores e alunos, ou seja, estes “aprendem” e aqueles “ensinam” um assunto que não é significativo nem para um, nem para outro. Desta maneira, estabelece-se um processo de ensino-aprendizagem destituído de curiosidade, interesse, paixão e significado, características imprescindíveis para a realização de um efetivo processo educativo.

Como tentativa de pensar em um caminho capaz de reverter, ainda que em parte, o quadro ineficaz da escola (no que tange à leitura) em eficiente, capaz de promover a construção de conhecimento e prazer, é que gostaria de sugerir, inicialmente, à Educação Infantil, o trabalho com os contos de fada. A Literatura proposta por Charles Perrault, Jacob & Wilhelm Grimm e Christian Andersen demarca o terreno de uma literatura infantil extremamente rica por seu alto poder imaginário.

Contribui, portanto, para responder às curiosidades da criança ou, pelo menos, encaminhá-las, uma vez que, ao possibilitar o diálogo com diversas personagens, em diferentes situações, as crianças vão se identificando com elas e, ao irem esclarecer suas dificuldades através de si próprias, vão construindo um caminho para as solucioná-las.

Os contos de fada podem trazer para a sala de aula o interesse, a curiosidade e a paixão, à medida que reinstauram a narração como elo entre professores e alunos, possibilitando, assim, um processo dialógico entre ambos.

Resgatar a narratividade parece ser um caminho para recuperar a palavra viva na escola, para, através dela, tentar construir um espaço de troca de experiência, que caracterizava, segundo o filósofo Walter Benjamin, a antiga prática dos narradores, hoje atropelada pelo isolamento da modernidade. Para este autor, a arte de narrar perde sua importância à medida que as experiências humanas não são mais compartilhadas, ou seja, deixam de ser narradas.

Buscar os contos de fada na complexa dimensão que estes comportam, isto é, não apenas como entretenimento para as crianças, mas como histórias que abarcam os sentimentos humanos e que podem favorecer o desenvolvimento de sua personalidade e o enriquecimento de sua existência. Este me parece ser o desafio ao se trabalhar com estes textos em sala de aula: tentar resgatar, a partir dos contos, a narração, o diálogo e o afeto na escola. E, assim, mudar o sombrio quadro de isolamento a que estamos acostumados.

Que todos se deixem envolver pelos maravilhosos contos, e se contagiem com suas idéias fantasiosas, a fim de que possam transformar a sala de aula num espaço mágico.

1. Zilberman, Regina. “A Criança, o Livro e a Escola”. In: A Literatura Infantil na Escola. Global. 1981. P.24.