Eduardo Viana

Está provado: música na infância ativa circuitos importantes para a formação do conhecimento. Ainda mais porque, como diz o neuropediatra Harry Chugani, da Universidade de Wayne, nos Estados Unidos, "as primeiras experiências de vida são tão importantes que podem mudar por completo a maneira como as pessoas se desenvolvem". E, no caso da música, a melhor época para se começar o aprendizado é dos três aos dez anos de idade – indicam estudos realizados na Alemanha e nos Estados Unidos.

Uma pesquisa realizada na Universidade da Califórnia com crianças em período pré-escolar mostrou que aquelas que tiveram aulas de piano e canto saíram-se melhor na cópia de desenhos geométricos do que as que não tiveram aulas de música. As sutilezas dos sons produzidos por cada instrumento, a capacidade de perceber a estrutura harmônica, a percepção e memorização da melodia – todos estes elementos contribuem para o desenvolvimento de várias capacidades, como a inteligência espacial e o raciocínio lógico-matemático. Não era à toa que, na Antigüidade Clássica, Música, Matemática e Filosofia caminhavam juntas. Todas as três áreas compreendiam um acurado raciocínio lógico (haja vista a forma com que o filósofo Sócrates apresentava suas idéias, inseridas num jogo de perguntas e respostas que lembram o processo binário da linguagem de computador).

Embora em muitas escolas ainda haja aulas de música no Ensino Fundamental, estamos longe da época em que a música fazia parte de um projeto nacional de formação da cidadania. Na década de 30, ela tinha uma importância capital na política de Educação do governo. Em 1931, o compositor sinfônico Heitor Villa-Lobos apresentou um plano de educação musical revolucionário à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Seu projeto deu tão certo que, pouco tempo depois, o compositor foi convidado pelo secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro, o educador Anísio Teixeira, a assumir a Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA), que introduzia o ensino da Música e o canto coral nas escolas. Em seguida, Villa-Lobos recebeu o reconhecimento e o apoio do presidente Getúlio Vargas, organizando concentrações orfeônicas que chegaram a reunir, sob sua regência, até 40 mil escolares.

O compositor tinha a noção de que a música era capaz de criar uma identidade nacional, um ideal de patriotismo, o que correspondia perfeitamente aos planos de Vargas. "O canto orfeônico integra o indivíduo dentro da herança social da Pátria", dizia. Em 1936, Villa-Lobos foi convidado a apresentar seu plano educacional no I Congresso de Educação Musical de Praga, sendo o único representante da América Latina.

Para os antigetulistas, os parágrafos acima podem gerar uma certa desconfiança. A música pode ser usada como arma? Domesticar as massas? Talvez possa. Mas pode também libertar, como o hino francês, La Marseillaise, que exortava as massas a fazer a Revolução Francesa e libertar-se da aristocracia ("Vamos, filhos da pátria, o dia de glória chegou!" (...) "Às armas, cidadãos!"), ou a canção Coração de Estudante (de Milton Nascimento e Fernando Brant), que deu o tom aos comícios das "Diretas- Já", no início da década de 80. Com o mesmo objetivo de denúncia, compuseram-se músicas como O Bêbado e a Equilibrista (de Aldir Blanc e João Bosco) e Apesar de Você (de Chico Buarque de Hollanda), ambas denunciando os desmandos do governo militar no Brasil.

A música não pode ser negligenciada pela escola. Quando se lembra de Beatles ou Elvis Presley, percebe-se como ela tem o poder de mudar comportamentos (ou, no mínimo, refletir o que vai no coração dos jovens). O professor Sérgio Henrique Andrade, por exemplo, entendeu isso e passou a aplicar o Rap em suas aulas de música na Escola Municipal Alexandre Farah, no Rio de Janeiro. Não é isto que a garotada carioca anda ouvindo no momento? Pois então: vamos refletir sobre o Rap. O que dizem suas letras? O que ele traz de contestação social? Vamos, também, deixar que as crianças criem seus próprios Raps. E, antes que alguém diga que "isto não é música", é bom lembrar que os cantadores nordestinos já fazem isto há décadas, num ritmo conhecido como "Embolada".

Outro exemplo foi vivido pela professora e socióloga Maria Antônia Dias, de Divinópolis, em Minas Gerais, que usou a música em seu projeto "Educando com Arte e Prazer". A professora percebeu que uma turma de terceira série estava com dificuldades de aprendizagem e decidiu adotar um novo método. Assim surgiu o projeto, que visava, entre outras coisas, a melhorar a auto-estima dos alunos e potencializar sua capacidade criativa.

Muitas vezes, as aulas de música se limitam a treinar o canto dos hinos nacionais e coisas como o "hino da escola", "música para a diretora", "música para a mamãe" etc.. Às vezes, as crianças têm a oportunidade de tocar (não extamente aprender) algum instrumento de percussão ou flauta doce. Mas é importante que as escolas e os professores de música pensem numa estratégia. Para que serve a música? Qual o objetivo de reunir as crianças em aulas de música? Será que é só para elas se distraírem cantando uma coisa qualquer? Será que é para "ensinar" a elas o patriotismo através dos hinos? Será que o objetivo é criar novos Mozarts? Seja qual for a estratégia adotada, está na hora de valorizarmos o ensino da música nos bancos escolares.

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