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Escola e Família
Um Projeto de Integração Por Andréa Fazeh Após alguns questionamentos quanto à validade de alguns conteúdos trabalhados em sala de aula, passei a organizar meu trabalho em torno de projetos. Não por puro mecanismo acadêmico, mas para compreender os conteúdos, dar-lhes consistência e aplicabilidade real. Também por acreditar que esta prática possibilita a abertura de um canal dialógico, na medida em que se pode, através de relatos como este, compartilhar as vivências do fazer pedagógico. O projeto que ora redijo tem por objetivo a busca por um leitor/escritor proficiente,através do (re)encontro com a família. Duas vertentes diferenciadas, que foram transversalmente desenvolvidas e que se configuraram na exata medida da demanda de meus parceiros: os alunos e os pais. Ao discutir com meus alunos a função social da escrita, buscava construir com eles o sentido de lermos e produzirmos textos em sala de aula. Minha pretensão era a de levar os alunos a refletirem sobre as possibilidades de expressarmos idéias, sentimentos, produzir e adquirir conhecimento. Não queria falar de regras. Acredito que elas são mais facilmente compreendidas quando a relação com a língua é saudável e prazerosa; até porque, na era em que estamos, não se pode apostar que o cérebro humano será capaz de competir com a agilidade de armazenamento de dados de um computador. Pretendia criar uma espécie de quadro de tipologia textual, tal como eu havia lido em um livro de Ana Teberosky. Porém, ao fazê-lo, constatei a prevalência de questões práticas de necessidade da escrita, como mandar e receber cartas, anotar fatos, receitas, ou pegar ônibus. Naquele momento, estas respostas se mostraram relevantes, porém incompletas, dada a amplitude que desejava alcançar. Ao indagar-lhes sobre a função da escola, novas pistas. Deparei-me com respostas prontas e até mesmo estereotipadas, como: “para ser alguém na vida” ou “para ter um emprego melhor do que o do meu pai”. Em meio àquele discurso autorizado, outra avaliação se tornou possível: em certa medida, as falas de meus alunos trouxeram indicativos de que a família mantém vivo o mito da ascensão social através da escola. E constituíram elementos suficientes, que me incentivaram a trazer a família para dentro da sala de aula e, de fato, compartilhar do processo escolar das crianças. Elaborar e desenvolver este projeto em que produção de texto e contexto familiar têm um agradável encontro para, então, caminhar transversalmente por outras disciplinas tornou-se um excitante desafio que, com orgulho, resgato nestas páginas. Comecei a concretizar minhas intenções traçando diretrizes para o encaminhamento do processo e as dividi em etapas, que consistiram em investigação, execução e avaliação do projeto. Por tratar-se de uma estratégia que possibilita maior percepção dos motivos pelos quais escrevemos - bem como a ampliação do conhecimento de mundo -, a produção de textos permeou todo o trabalho. A primeira etapa consistiu em investigar, através de uma entrevista estruturada construída coletivamente, dados sobre os familiares que participariam desse processo com a gente. Configuramos, então, nossa primeira produção textual, em que prevaleceu o “reconhecimento da importância da expressão oral: diálogos, entrevistas, comentários, opiniões, ampliando a capacidade comunicativa de tomada de decisões e formação de conceitos” (Multieducação). Aqui, abro parênteses para uma confissão: muito embora o critério de participação dos pais fosse, sobretudo, o interesse, fiz um pré-julgamento e inseri uma pergunta ardilosa para evitar possíveis ações de resistência à ida à sala de aula: “Você acha importante que este tipo de trabalho exista na escola, ou seja, que o responsável possa colaborar participando de um projeto desenvolvido na turma de seu filho?” A entrevista preliminar, então, ficou assim:
Se você acha importante, e também assinalou que poderá participar, em breve receberá o convite dizendo o dia e a hora em que a turma 302 estará esperando por você. Até lá! Professora Andréa e turma 302 A imensa maioria dos familiares que respondeu ao questionário foi de mães (75,7%), grande parte delas (36,3%) donas de casa. Em resposta à sétima pergunta do questionário, 57,4% se prontificaram a participar do trabalho proposto. As profissões oscilaram em igual incidência, entre as que demandam maior escolaridade – como auxiliar de escritório (3%), corretor de imóveis (3%), auxiliar de enfermagem (3%) – e as menos especializadas: porteiro (3%), copeira (3%). As empregadas domésticas formaram o maior universo de profissões declaradas (12,1%). Analisando as respostas relacionadas ao tema sobre o qual gostariam de conversar com a turma, considerei necessário fazer uma interferência. Surgiram intenções de falar sobre “religião”, “comportamento em sala” ou “importância da escola”, que, ao meu ver, poderiam vir a tornar-se discursos em que juízos de valor não compartilhados por todos fossem passados, impostos de modo exaustivo, com conotação de conselhos ou falas enfadonhas. Sugeri, então, que encaminhássemos as entrevistas para a questão profissional, sendo valorizadas as aptidões e as experiências de cada um. Mas outro critério surgiu durante o percurso: a valorização pessoal. Douglas e Tainá, alunos com rendimento abaixo do esperado, embora espertos e inteligentes, apresentavam desmotivação e auto-estima baixa em muito do que faziam e falavam sobre si próprios. Ao conversar com suas respectivas mães e convidá-las para a entrevista, os alunos, orgulhosos, apresentaram substancial melhora no rendimento e em participação. Sentiram-se valorizados e apresentaram uma participação de qualidade em sala de aula.
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Já de posse das entrevistas, e aplicando-as aos familiares, os alunos começaram a trazer novas informações. Teceram comentários que denotaram o temor e o receio que alguns pais evidenciaram em ir à escola. Percebi o quanto, em alguns casos, poderia ser difícil a participação que desejava alcançar. Assim, surgiu um novo braço do projeto em que, mais uma vez, a produção de texto esteve presente. Intensificamos o fluxo de informações através dos cadernos dos alunos, contando com a participação deles no desenvolvimento de textos que seriam utilizados. Para enriquecer essa etapa, foi feita uma produção textual coletiva para ser divulgada na reunião de pais. Pedi que cada criança completasse as seguintes frases: “Eu gosto de ser criança por-que ...” e “Às vezes, é ruim ser criança porque...”. Organizadas, ficaram assim:
Para o desenvolvimento de um trabalho produtivo e sistematizado, a ferramenta encontrada para a execução das entrevistas foi elaborar um esquema suficientemente dinâmico e prático, que desse conta de organizar o tempo e garantir a participação de todos. Os alunos, em plenária, eram estimulados a pensar sobre a rotina profissional do entrevistado e iam formulando perguntas espontâneas, as quais eram anotadas por mim, que exercia o papel de facilitadora do processo. Posteriormente, todas eram lidas e discutíamos para selecionar as que ficariam no roteiro final. Desconsiderávamos as perguntas redundantes, fora do contexto e óbvias demais. O texto final era copiado por todos e, no dia da entrevista, o registro das respostas era feito de acordo com o que cada um considerasse mais importante das falas do entrevistado. Vale registrar que desse contexto fazia parte a cópia, recurso tão criticado e enfadonho mas que, contextualizado - isto é, sabendo o aluno para que e para quem fazê-la, percebendo-a como produto coletivo -, torna-se tão valioso quanto qualquer outra produção escrita. Cada entrevista era uma culminância, acompanhada de toda “pompa e circunstância” que pode haver quando há efetiva participação e valorização das crianças. Ao analisar o impacto do projeto para os diversos segmentos da escola, captei algumas falas que me levaram à reflexão. Algumas palavras vêm com um endereço e acabam chegando a outros destinos. Foi o caso de um comentário feito, despretenciosamente, em casa, pela mãe da aluna Nílcia e transmitido a mim por ela, com toda graça e simplicidade infantil: “Tia, minha mãe disse que gosta de você porque você faz umas coisas que ela nunca viu fazer na escola dela”. Sei que a mãe da Nílcia jamais saberá o quanto avaliou de minha competência ao fazer este comentário, e isto tão somente porque o que busco é exatamente a inovação eficaz no fazer escolar. Maria, mãe de seis filhos - um dos quais morto violentamente - está à frente da pensão que sustenta a família. Com todo jeito de “super-mulher”, desmanchou-se ao dizer o quanto cada filho representava para ela. E fez - como ela mesma disse - o impossível para não chorar ao dizer o quanto o seu trabalho lhe fazia mal, pois era obrigada a fazer cerca de 50 “quentinhas” por dia, por força do destino (e do marido, que lhe impusera aquele ofício), e que seu grande sonho era ver seus filhos felizes, colhendo os frutos que ela estava plantando para que isto acontecesse. Ao fugir do lugar-comum afirmando que é preciso querer “ser alguém quando crescer”, Maria mostrou a que veio relacionando o quanto sua vida está entrelaçada com a de seus filhos e que seus sacrifícios têm endereço certo: a conquista de uma existência harmoniosa para aqueles a quem ama. Alcançando isto, os bons frutos virão naturalmente. A mãe da Tainá alegrou a turma contando algumas bagunças que fez na escola; e encantou a todos ao dizer que a disciplina de que mais gostava era Ciências, “por causa da professora”. Ao identificar o motivo que a levava a uma maior identificação com a disciplina, a mãe da Tainá mostrou o quanto o professor pode aproximar ou, irremediavelmente, afastar o aluno da busca pelo conhecimento. Para mim, ela provou o quanto a afetividade nas relações humanas - aqui entendida como o conjunto de atitudes, valores e comportamentos que pode determinar o sucesso ou o insucesso no processo educativo. Diante de tudo o que vivenciamos neste projeto, concluo que o “fazer pedagógico” competente precisa de ingredientes complementares, como empatia, carisma, empenho. Percebi, também, que nós - pais e educadores - fertilizamos, plantamos, regamos, mas para que alguém colha, um dia. E que, como muitas vezes não estamos perto para ver e provar destes frutos, temos a impressão de que nosso trabalho é vão. Mas não é. Acreditando nisso, faço uma auto- avaliação e me vejo buscando novas e diferenciadas formas de atuação. Sei que corro o risco de ser vista como aquela professora moderninha, que “está sempre inventando”, mas opto, conscientemente, por seguir este caminho. Acelerando
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