Minibienal da Escola Villaça torna-se um marco no estímulo à leitura entre jovens e adultos

Por Wellison Magalhães

“Lá existe uma escola onde estudar é diferente, nela se aprende a vida, com ela se conhece muita gente, cada aluno é um elo, uma corrente de energia. Essa escola que amamos trabalha com muita alegria”. A primeira estrofe do hino da Escola Municipal PM Tenente-Coronel Eduardo Villaça traduz o espírito de amizade e solidariedade que norteou a II Minibienal do Livro, realizada por alunos e professores da instituição.

A idéia de criar, na escola, uma réplica de um dos eventos literários mais conceituados em nosso meio – a Bienal do Livro – deu-se pela carência de acesso da comunidade a este tipo de evento. “Primeiramente por ser longe e, também, para trazer até eles (alunos e visitantes) o que muitos só vêem pela televisão”, afirmou a diretora. E tudo o que acontece numa bienal do livro aconteceu – em proporções menores, é claro – no evento da escola.

Pela manhã, os alunos declamaram poesias, cantaram e um grupo apresentou As Páginas de Nossas Vidas, em que relataram suas experiências fora da sala de aula e, mais especificamente, dentro de suas casas. Os relatos foram encadernados e, na capa, as fotos digitalizadas de todos os participantes que escreveram algo a respeito de si mesmos emocionaram pais, professores e alunos.

Nas mesas, os trabalhos espalhados pela escola davam o tom do objetivo maior da Minibienal, isto é, aproximar as crianças da arte de ler e escrever. Vários livros infantis, produzidos por alunos e alunas, decoravam os estandes diversos. “Essas produções começaram já na I Minibienal. Os alunos escreveram os textos, produziram as ilustrações e fizeram seus próprios livros. Para eles e para nós, foi uma experiência inesquecível”, afirmou, orgulhosa, a coordenadora pedagógica Sueli da Silveira.

Livros simples, infantis, mas uma novidade para os escritores mirins. Como é o exemplo dos alunos Thiago Felipe de Oliveira e João Vitor Santos, que escreveram Um Dia de Natal. O livro de quatro páginas traduz bem a produção feita pelos outros estudantes na escola:

“Era dia de Natal. Num pequeno bairro chamado Barata, um menino de nome Anderson estava esperando seus parentes para mais um natal em família. Eles costumavam fazer a ceia juntos e, neste dia, não foi diferente. Comeram panetone, peru assado, rabanadas e muito mais. Chegou a hora de abrir os presentes e cada um ganhou uma coisa: carrinhos, bonecas, bolas etc. No fim, todos foram dormir felizes, com mais este dia de Natal”.

A iniciativa da coordenação da escola foi recebida com entusiasmo também pelos pais dos alunos. “No princípio, foi preciso conversar muito para que eles chegassem perto de nós e participassem deste novo momento da escola, mas, aos poucos, conseguimos e isso tem sido o fundamental para o crescimento do ensino aqui”, afirmou Glória Knopp, diretora adjunta da instituição.

Esse desenvolvimento é confirmado pelo testemunho de Paulo Ignácio, pai de Mariana, 8 anos, ainda estudante do Villaça, e de Maurício, 10 anos, hoje em outra escola, mas que deixou sua marca na I Bienal. “Queria que existisse isso no meu tempo. Estou impressionado. Meus filhos chegam em casa desinibidos. Aqui eles ensinam nossos filhos a serem gente”, disse entusiasmado, enquanto observava uma produção feita pela filha.

Durante a tarde, o evento contou com um número ainda maior de participações e com um programa mais completo. Além do hino da escola cantado pelas crianças, alguns alunos, caracterizados, apresentaram uma peça do Bumba-Meu-Boi, que arrancou risos e aplausos de pais, amigos e professores. A escritora Sonia Rosa, autora de diversos livros infantis, foi a convidada especial do evento. Ela se encarregou de captar a atenção dos alunos, contando, em primeira mão, a história Como é bonito o pé do Ygor, livro infantil que será lançado ainda este ano. Entretanto, foi o livro Cadê Clarisse?, da própria Sonia, que serviu de base para as diversas produções expostas pelos novos escritores do Villaça, neste ano.“Eu vivo dentro do magistério público há mais de 20 anos. Acredito que uma escola funciona bem quando valoriza a leitura e aqui isso tem sido feito com competência”, afirmou Rosa, referendando a realização do evento.

Em uma das oficinas, a professora e também escritora Kátia Lopes dirigiu uma mesa-redonda com os pais, discutindo a importância da leitura dentro de casa e o papel dos responsáveis na formação do interesse dos filhos pelos livros. Já a oficina Brincando com os livros estimulou a imaginação dos alunos, através da arte, para que eles entrassem na história contada pela professora Miriam Fonte Bôa, fazendo cada um o personagem do conto Arari, a aranha curiosa. Ao final, com balões de encher na cor preta, cada participante criou uma aranha tal qual o personagem do livro. Em Contos de Arrepiar, oficina dirigida pela professora Raquel da Silveira, a narrativa sobre os medos que permeiam o universo infantil arrancou gritos dos participantes. A sala escura e uma música de terror ao fundo davam o tom para quem entrava ali.

Contudo, a oficina mais badalada foi a do índio Sarapó Wakonã, 23 anos, da tribo Xucuru Kariri, de Palmeira dos Índios, em Alagoas, que, além de estar caracterizado, apresentou um material diverso sobre a cultura indígena. O objetivo era falar sobre a preservação do meio ambiente e, é claro, sobre o dia-a-dia numa aldeia. Há cinco anos no Rio de Janeiro, Sarapó estuda e aproveita todo o tempo para fazer apresentações nas escolas da cidade. As crianças tiveram a oportunidade de fazer perguntas ao índio, que pôde tirar diversas dúvidas que povoavam o imaginário infantil.

A correria por todos os lados e o prazer de folhear cada material produzido eram sinônimo de realização, tanto por parte dos professores engajados no evento quanto das crianças, alvo maior da instituição.“Aqui, no Villaça, tudo cresce e vira um ideal”, afirmou Knopp, feliz com o resultado da programação, e acrescentando, ainda, que a participação e o interesse dos alunos pelos temas expostos são agentes motivadores para a equipe docente. “Foi ótimo, eu gosto de ler, gosto de escrever e fazer minhas tarefas. Gostei muito de tudo que aconteceu aqui”, assegu­rou Antônio Marcelo, 9 anos, um dos alunos que produziu material para a exposição. Já Viviane Rangel, de 6 anos, disse que fazer os desenhos foi o que ela mais curtiu na Bienal do Villaça.

“Muitas mães se envolveram na realização do evento, o que garantiu o seu sucesso. Fazer uma Minibienal foi um desafio em um primeiro instante. Afinal, era necessário unir boa vontade, criatividade e coragem para trazer a uma comunidade simples algo que ampliasse o horizonte de pais e alunos da escola. Mas o efeito não poderia ser melhor. E, quando surgir um escritor dentre os alunos do Villaça, com certeza, ele se lembrará de onde tudo começou”, concluiu a diretora.

Em uma das oficinas, um dos contadores de história trabalhou o medo entre as crianças, com humor e um toque de terror nas histórias narradas
Os alunos trabalharam o texto, a criação e a programação visual de cada livro
Além das oficinas e palestras, a escola abriu um espaço para leitura
O livro Páginas de Nossas Vidas, feito pelos alunos, relata a experiência de cada um fora do ambiente escolar

Escola Municipal PM Tenente-Coronel
Eduardo Villaça
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Tel: (21) 3331-1790
Diretora: Cláudia Knopp
Fotos: Marcelo Ávila